Não foram eleitos ou mandatados pelo povo, mas decidem o futuro da humanidade, moldam os mercados, são opinion makers, influenciam os governantes e eximem-se habilidosamente a qualquer forma de controlo ou escrutínio.
É desta forma que, a partir da lista Forbes dos homens mais ricos do planeta, o livro “Mais Poderosos do que os Estados”, da jornalista e escritora Christine Kerdellant, expõe o poder cada vez mais extraordinário de seis líderes bilionários, cuja riqueza e influência estão “para lá do entendimento” e competem com as dos Estados mesmo quando as ações que detêm perdem valor: Elon Musk (SpaceX, Tesla, X), Jeff Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Facebook-Meta), Bill Gates (Microsoft), Sergey Brin e Larry Page (Google).
A autora destaca que este poder destes bilionários é “uma situação perigosa” e “não tem precedentes na história das nossas democracias”, analisando o sistema socioeconómico que tornou possíveis estes percursos, examinando os vazios políticos e regulatórios que eles preencheram de forma brilhante.
A obra que conta com tradução para português e foi publicado pela editora “Edições 70” aponta que “não são as fortunas que lhes conferem poder, mas sim o poder que lhes dá as fortunas. No fundo, os seus recursos financeiros importam pouco. O que conta são essas capacidades que os Estados não têm, já não têm ou nunca tiveram. Em certos domínios, substituem os Estados ou opõem-se a estes. Um dia, poderão suplantá-los. Sem terem recebido o aval do povo. Isto é inédito na história das democracias”.
Segundo Christine Kerdellant, “estes seis multimilionários ocidentais prosperam sem entraves porque aqueles que poderiam travá-los não o querem fazer e os que querem travá-los não podem. Representam uma ameaça existencial para as democracias que os alimentam no seu seio, ainda que aleguem velar pelas nossas vidas como o Vaticano vela pelas nossas almas”.
“Os EUA e a Europa deixaram crescer os gigantes da tecnologia até se tornarem intocáveis”
A autora refere que dos 2668 multimilionários no nosso planeta, segundo a classificação da Forbes 2023, Musk, Zuckerberg, Page, Brin, Bezos e Gates não são os seis primeiros da lista. Mas explica por que razão a sua atenção se concentra nestas seis figuras: “Bernard Arnault, o patrão da LVMH, geralmente à cabeça quando os ventos da bolsa lhe são favoráveis, Warren Buffett, o nonagenário rei dos investimentos, ou Françoise Bettencourt Meyers, a herdeira da L’Oréal, acumularam riquezas sem, porém, terem um poder de vida ou de morte sobre as nossas sociedades. Possuem mais dinheiro do que aquele que alguma vez poderão gastar, mas não são transumanistas, não querem modificar a espécie humana, não têm sonhos messiânicos, não utilizam os seus meios colossais para acabar com a morte ou colonizar Marte… e não exercem sobre o psiquismo das jovens gerações a mesma influência nefasta”.
“Os Estados Unidos e a Europa deixaram crescer os gigantes da tecnologia até se tornarem intocáveis. A China, por seu lado, conteve-os para favorecer os seus próprios agentes, como a Alibaba ou a Tencent; no entanto, quando estas empresas se tornaram superpoderosas, quando passaram a representar um perigo para o Estado, Xi Jinping cortou-lhes as asas. Controlou-as a fim de utilizar o seu poder em proveito próprio. Dificilmente este controlo seria concebível no Ocidente, mas a China é tudo menos um Estado de direito”, diz a autora.
“Será que os Estados ocidentais se tornaram demasiado fracos ou foram estes multimilionários que se tornaram demasiado fortes? Se as suas fortunas batem todos os recordes, não é apenas porque as respetivas atividades florescem: é também porque reconfiguraram os fluxos financeiros mundiais a seu favor, com a ajuda dos paraísos fiscais, em detrimento dos países onde exercem as suas atividades”.
Estes novos super-ricos, afirma a escritora, “confiscam aos Estados algumas prerrogativas soberanas, ou seja, funções que deviam decorrer exclusivamente da autoridade soberana. Introduziram-se no sector espacial, na saúde, na defesa, na diplomacia, na educação — ou melhor, no saber e na influência sobre os espíritos… —, até obterem, em certos domínios, um controlo quase total. São mais ricos, mais influentes e mais ágeis do que a maioria dos Estados-nações. E não prestam contas a ninguém — sobretudo não aos eleitores”.