Estou de volta para partilhar a chegada. Podemos começar já com a viagem do aeroporto para a casa alugada. Só rir.
Eram 6h da manhã quando aterrei, num xitex (podemos usar vocabulário de rua na Forbes?), com uma vontade enorme de ver tudo, de conhecer, ambientar-me, viver o Rio como se fosse um deles. Coitado do rapaz da produção que me foi buscar, todo querido com um cartaz com o meu nome. Entrei no carro e, como o caminho era longo, resolvi fazer conversa, apresentar-me e fazer perguntas sobre tudo. Uma vez mais, coitado do rapaz.
Os primeiros 10 minutos foram comigo a falar e ele a responder “ahumm”, que é como quem diz “sim”. Até que eu digo esta frase: “E os meus amigos gozaram comigo”. Do lado dele saiu um “Oi?” e uma cara de espanto com olhos esbugalhados. Ao que eu repeti: ”Sim, gozaram todos comigo”. Fez-se um silêncio desconfortável nos minutos seguintes. Até que me dá uma luz e lhe digo: “Já entendi o seu silêncio, o que acabei de dizer tem outro sentido para os brasileiros, certo?!”. Ele riu-se a disse que sim. Depois de me explicar o sentido dessa frase no Brasil, desatei a rir e percebi que, no futuro, teria de ter atenção ao que dizia. Ah! E não achem que vão ler aqui o significado de “gozar” em português do Brasil porque não vai acontecer, vão ao Google ou perguntem a um amigo brasileiro. Que seria…

Voltando à chegada ao Brasil. Entro em casa, uma casa alugada pela produção, com 90 kg de coisas que acho que vou precisar, olho à minha volta e bate-me naquele momento que realmente mudei de vida por uns meses. A partir de agora vivia sozinha, algo pelo qual não passava há 10 anos, não teria mais horários fixos para nada, não precisava fazer refeições a determinadas horas, cozinhar para agradar a toda a família, deitar o filho às 21h30, poderia deixar tudo espalhado por onde eu quisesse que ali iriam permanecer até eu ganhar vergonha na cara. Pequenas coisas parvas que me passaram pela cabeça. Os primeiros dias foram passados a curtir a solidão. Mas rapidamente o “curtir” se transformou em saudade. Saudades de cozinhar para a família, saudades de ter alguém ao meu lado no sofá para comentar séries, saudades de ir buscar o filho à escola, saudades de ter sempre algo para fazer mesmo não tendo nada para fazer. Saudades. Lidar com elas não tem sido fácil, nada fácil. Mas depois paro e penso: Bolas, saí do meu país, deixei a família para trás para concretizar um sonho. É erguer a cabeça e viver o agora, mesmo que carregada de saudade.
E é o que tenho feito.
No primeiro dia de ensaios ia com o mesmo feeling de quem vai para o seu primeiro dia de aulas na escola nova. Será que os colegas vão ser simpáticos? Será que o método de trabalho é muito diferente? Será que me vou adaptar?
Estavam presentes todo o elenco principal, a produção, os realizadores (aqui chamados de diretores) e alguns membros da equipa de filmagem. Sugeriram que nos apresentássemos. Rapidamente o meu cérebro começa a escrever um texto curto e simples: Olá, o meu nome é Rita Pereira, sou uma atriz portuguesa e faço de “Acácia Lisboa” mais conhecida por “Siá Boa”. Ótimo assim. Só que a primeira pessoa a falar foi a atriz Deborah Evelyn, e que bem que ela falou. Deu as boas vindas, partilhou o quão feliz estava por fazer parte daquele projeto, disse piadas das quais todos riram. Seguiram-se mais sete atores, todos eles com discursos lindos, inspiradores e aplaudidos. Até que chega a minha vez e penso “tenho de prolongar um pouco mais o que ia dizer para não parecer a básica da portuguesa, eles falaram todos tão bem”. Posto isto, vou a iniciar o meu discurso e o meu cérebro dá o tilt (quando o cérebro deixa de funcionar com normalidade, impedindo-nos de fazer coisas que considerávamos banais), acabando por dizer: Olá, o meu nome é Rita Pereira, sou uma atriz portuguesa e hoje é o meu primeiro dia da concretização de um sonho. E desato a chorar.
Sim, isto aconteceu, desatei a chorar, a soluçar, sem conseguir terminar o discurso, sem conseguir sequer dizer o básico. Que ridícula, esta era a imagem com que todos iriam ficar de mim. Ridícula. Claro que os meus colegas e produção foram uns queridos e abraçaram-me, parabenizaram-me e ofereceram ajuda para o que fosse preciso, mas a minha dignidade foi por água abaixo, literalmente.
Hoje em dia, quando penso na situação, desato a rir de tão tolo que foi. Na verdade acho que me emocionei porque percebi que, naquele momento, o sonho se tinha transformado em realidade e que estava mesmo acontecer.
Os desafios de se trabalhar no Brasil ficam para as cenas do próximo capítulo. Se a Forbes não acabar agora com a partilha das minhas histórias.
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