Não se conhece em rigor o valor da fortuna da família Aga Khan, cujo fundador e presidente da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN), e líder dos muçulmanos xiitas ismailis, faleceu esta semana, em Lisboa, aos 88 anos.
As estimativas vão desde os 800 milhões de dólares (cerca de 771 milhões de euros) até aos 16,8 mil milhões de dólares (16 mil milhões de euros), uma amplitude de valores muito vasta que, ainda assim, levaram a Yahoo Finance a colocar, em dezembro de 2024, o clã Aga Khan como a quarta família real mais rica do mundo, apenas atrás do rei da Tailândia, Maha Vajiralongkorn (1º lugar), do Sultão do Brunei, Hassanal Bolkiah (2º lugar) e o rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud (3º lugar).
O príncipe era dono de um super iate de 258 milhões de dólares e do maior jato privado do planeta (segundo o The Sun), para não falar de um espantoso império imobiliário e de uma das mais importantes empresas de criação de cavalos e de organização de corridas de cavalos do mundo.
Aga Khan ficou também famoso por ser um mega-filantropo graças à sua organização de caridade com o mesmo nome.
Shah Karim al Hussaini, príncipe Aga Khan, 49.º Imam hereditário dos muçulmanos ismaelitas, nasceu na Suíça, cresceu e estudou no Quénia e nos Estados Unidos, e tem ligações ao Canadá, Irão e França, e nos últimos anos também a Portugal, com a escolha de Lisboa para sede mundial da comunidade ismaelita, “Imamat Ismaili”, tornando-a uma referência para os cerca de 15 milhões de muçulmanos da minoria xiita.
Discreto, tido como uma das pessoas mais ricas do mundo, Aga Khan IV nasceu a 13 de dezembro de 1936 na Suíça, filho do príncipe Aly Khan e da princesa Tajuddawlah Aly Khan. Cresceu no Quénia, frequentou a Le Rosey School, na Suíça, durante nove anos, e licenciou-se depois em Harvard, nos Estados Unidos.
Definiu-se como um “otimista mas cauteloso”, alguém que não sendo um homem de negócios aprendeu a sê-lo, que acreditou que a pobreza existe, mas não é inevitável. E nas palavras de amigos foi alguém que nunca bebeu nem fumou e que dedicou muito do seu tempo ao trabalho e a visitas à comunidade.
Duas vezes casado, teve quatro filhos (um deles o seu sucessor), foi um apaixonado por esqui mas também por cavalos, e criou um império que vai da banca à hotelaria, que financia projetos de desenvolvimento social, incluindo em Portugal, onde existe desde 1983 a Fundação Aga Khan.
Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN)
A Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN) tem atividades em Portugal e no estrangeiro na área da cultura, da moda e dos festivais, da educação, com apoio a universidades, do ambiente, a ajudar a preservação de sítios, da área social, da sustentabilidade ou da saúde.
A filantropia económica em países em desenvolvimento é uma das várias áreas da rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKND), apoiando empresas em 18 países através do Fundo Aga Khan para o Desenvolvimento Económico (AKFED).
O fundo internacional destinado a ajudar empresas em países em desenvolvimento trabalha e ajuda a criar negócios em regiões do mundo que carecem de investimento direto e conta com mais de 90 empresas que empregam 55 mil pessoas.
Em 2021, segundo dados disponibilizados no site oficial do AKND, as receitas conjuntas das empresas apoiadas pelo AKFED ascenderam a cerca de 4 mil milhões de dólares. Os lucros são depois reinvestidos em projetos de desenvolvimento.
Aga Khan, fundador e presidente da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN), e líder dos muçulmanos xiitas ismailis, morreu esta terça feira, em Lisboa, aos 88 anos.
Um dos principais objetivos do fundo é “criar empresas rentáveis e sustentáveis através de investimentos a longo prazo que resultam em fortes posições de capital”.
“Isto, por sua vez, permite-nos adotar uma abordagem prática, fornecendo conhecimentos técnicos e de gestão. Os lucros que geramos são reinvestidos noutras iniciativas de desenvolvimento económico sob a égide da AKFED”.
O fundo, que existe há mais de 75 anos, faz investimentos e apoia empresas em países como Moçambique, África do Sul, Afeganistão, Burkina Faso, Burundi, Costa do Marfim, República Democrática do Congo, Índia, Quénia; República do Quirguizistão, Madagáscar, Maurícia, Paquistão, Ruanda, Senegal, Tajiquistão, Tanzânia e Uganda.
As empresas apoiadas variam desde a banca, energia elétrica, agricultura, hotelaria e telecomunicações, trabalhando simultaneamente com governos locais para a implementação de estruturas legais e fiscais que incentivem o desenvolvimento do setor privado nos respetivos países.
Com o objetivo de criar empresas “viáveis, autossustentáveis e rentáveis”, o AKFED adota uma abordagem a longo prazo participando diretamente na gestão dos negócios.
Aga Khan definia a AKFED como uma “agência de desenvolvimento internacional com fins lucrativos que, devido à sua origem institucional e consciência social, investe em países, setores e projetos com base em critérios muito diferentes dos de um simples investidor comercial”.
“As decisões de investimento baseiam-se mais nas perspetivas de uma vida melhor para os grupos de pessoas que serão afetados pelos investimentos e pelos seus resultados do que na rentabilidade final.
A Rede de Desenvolvimento Aga Khan, a principal organização filantrópica lida principalmente com questões de cuidados de saúde, habitação, educação e desenvolvimento económico rural. Trabalha em mais de 30 países e tem um orçamento anual de cerca de mil milhões de dólares para atividades de desenvolvimento sem fins lucrativos.
Uma rede de hospitais com o seu nome está espalhada por locais onde faltavam cuidados de saúde para os mais pobres, incluindo o Bangladesh, o Tajiquistão e o Afeganistão, onde investiu dezenas de milhões de dólares para o desenvolvimento das economias locais.
O seu gosto pela construção e pelo ‘design’ levou-o a criar um prémio de arquitetura e programas de Arquitetura Islâmica no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e em Harvard e restaurou antigas estruturas islâmicas em todo o mundo.
Os ismaelitas – uma seita originalmente centrada na Índia, mas que se expandiu para grandes comunidades na África Oriental, na Ásia Central e do Sul e no Médio Oriente – consideram um dever dar o dízimo de 10% dos seus rendimentos a Aga Khan como administrador.
“Não temos a noção de que a acumulação de riqueza seja má”, disse Agá Khan à Vanity Fair em 2012. “A ética islâmica é que, se Deus nos deu a capacidade ou a sorte de sermos um indivíduo privilegiado na sociedade, temos uma responsabilidade moral para com a sociedade.”
Portugal beneficiado
A cultura é uma das áreas que a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKND, na sigla em inglês) tem vindo a apoiar em 30 países, incluindo Portugal, com aquisição de obras de arte para museus e restauro de património cultural.
Presidida pelo príncipe Karim Aga Khan, 49.º Imam Hereditário e líder espiritual dos muçulmanos xiitas ismailis, que a fundou em 1967, a AKND, com sede mundial em Lisboa, é um projeto de desenvolvimento que também abrange o apoio a áreas da saúde, sociais e económicas, segundo a apresentação no sítio ‘online’ da organização.
O trabalho das agências da AKDN está concentrado principalmente em áreas carenciadas da Ásia Meridional e Central, África Oriental e Ocidental e Médio Oriente, mas também desenvolve programas nos setores da educação e da cultura na Europa e na América do Norte.
Em Portugal, a sua intervenção foi desde o apoio ao Plano Nacional de Leitura, à promoção de projetos de conservação de património, tendo realizado igualmente apoios mecenáticos, como a aquisição de peças de arte para museus nacionais.
A rede possui o Fundo Aga Khan para a Cultura (AKTC – Aga Khan Trust for Culture) que promove regularmente prémios para a arquitetura, no valor de um milhão de dólares (cerca de 900 mil euros), e para a música, no valor de 500 mil dólares (cerca de 457 mil euros).
A AKTC dá apoio à educação musical e artística, à formação de artesãos, ao restauro e conservação de património, assim como de cidades históricas, além de apoio mecenático em países e organizações parceiras.
Em 2024, contabilizava o apoio a cerca de 40 mil músicos e educadores musicais, e a formação de 4.550 artesãos em técnicas de construção e meios de subsistência tradicionais.
Em Portugal, em 2015, durante a campanha pública do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, de angariação de 600 mil euros para a aquisição do quadro “A Adoração dos Magos”, do pintor português Domingos António Sequeira (1768-1837), a Fundação Aga Khan fez uma doação de 200 mil euros, a maior registada.
Quatro anos depois, o príncipe Aga Khan financiou o restauro de três pinturas de Bento Coelho da Silveira (1617-1708), artista régio de Pedro II: “Apresentação da Virgem no Templo”, doada ao Museu Nacional Soares do Reis, no Porto, “Repouso no Regresso do Egipto” e “Virgem com o Menino e a Visão da Cruz”, entregues ao MNAA.
As obras foram doadas através do Imamat Ismaili e da AKDN, entidades que estabeleceram um acordo, em 2015, com o Estado Português, para instalação da sua sede mundial em Lisboa.
Uma década antes, na área da conservação e restauro do património cultural, a Fundação Aga Khan foi um dos mecenas do projeto de recuperação da antiga Sé de Silves, no distrito de Faro, monumento nacional desde 1910.
Globalmente, o Programa Aga Khan das Cidades Históricas desenvolveu mais de 350 projetos de restauro e conservação em zonas históricas, no âmbito de iniciativas de reabilitação urbana para o desenvolvimento social, económico e cultural local.
Em 2019, a AKDN também assinou com o Governo português um protocolo de apoio ao Plano Nacional de Leitura para três anos, visando o apoio a 300 escolas do ensino infantil e pré-escolar através da compra de livros, no valor de 150 mil euros.
A organização escolheu Portugal para realizar, em 2019, a primeira cerimónia dos Prémios de Música – lançados no ano anterior – que teve lugar em Lisboa, coorganizada pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Câmara Municipal de Lisboa.
Estes prémios “distinguem e apoiam a criatividade e o potencial de exceção, o empreendedorismo nas áreas das atuações musicais, criação, educação, preservação e revitalização em sociedades de todo o mundo, nas quais exista uma presença significativa de muçulmanos”, indica um texto da organização.
Na altura foram distinguidos artistas provenientes do Azerbaijão, Uzbequistão, Mali, Irão, Palestina, Índia, Turquia, Paquistão, Líbano e Egito.
O programa para a música apoia o património musical em sociedades com uma significativa presença muçulmana, através da educação, criação e divulgação musical, investindo em centros e escolas para o desenvolvimento do currículo de música, nomeadamente no Afeganistão, Egito, Cazaquistão, Quirguistão, Paquistão e Tajiquistão.
Quanto ao Prémio Aga Khan para a Arquitetura, é concedido a cada três anos a projetos que estabeleçam novos padrões de excelência em arquitetura, práticas de planeamento, preservação histórica e arquitetura paisagística.
O galardão procura “identificar e encorajar conceitos de construção que consigam fazer face às necessidades e aspirações de sociedades pelo mundo onde exista uma presença significativa de muçulmanos”.
Este prémio para a arquitetura completou 15 ciclos de atividade desde 1977, premiando 128 projetos, e tendo sido reunida documentação de mais de 9.000 projetos de construção em todo o mundo.
As agências da AKDN são organizações de desenvolvimento privadas, internacionais e assumem-se como não confessionais. E embora tenham o seu próprio mandato, trabalham em conjunto no quadro global da rede para reforçar as suas atividades mutuamente.
A organização trabalha em estreita colaboração com agentes de governos de dezenas de países e da sociedade civil, e os seus parceiros são habitualmente instituições “com os mesmos objetivos na conceção, implementação e financiamento de projetos inovadores de desenvolvimento”, explica o sítio ‘online’ da AKDN.
Os parceiros institucionais – como universidades, associações e instituições bancárias – contribuem financeira ou materialmente para os programas das agências individuais.
A AKND, na sua página na Internet, explica que as respetivas agências foram criadas inicialmente para dar resposta a necessidades da comunidade ismaili na Ásia Meridional e na África Oriental, “mas expandiram-se para abranger projetos em áreas onde há muitas religiões e etnias, e onde nem existe presença de ismailis”.
“As comunidades ismailis em áreas pobres e remotas beneficiam dos projetos da AKDN, mas os programas, quando implementados em grande escala, normalmente beneficiam uma vasta fatia da população. Existem muitas áreas – no Egito, na Índia, na República do Quirguistão e no Mali, por exemplo – onde os principais programas favorecem populações nas quais a comunidade ismaili não está presente”, conclui a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento.
O herdeiro: quem é Rahim
Rahim Aga Khan é, aos 53 anos, o novo líder da comunidade ismaelita, papel que assume depois de dedicar as últimas décadas à Rede Aga Khan para o Desenvolvimento, onde presidia ao Comité para o Ambiente e o Clima.
O sucessor de Aga Khan foi escolhido pelo próprio príncipe de entre os seus três filhos homens: Rahim, Hussain e Aly.
Nascido em 12 de outubro de 1971, Rahim Aga Khan é o filho mais velho do príncipe Aga Khan e assume a liderança da comunidade ismaelita depois de ter dedicado os últimos 20 anos à gestão da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN), na qual integra vários órgãos.
Rahim Aga Khan estudou na Phillips Academy em Andover, Estados Unidos e formou-se na Universidade de Brown com um bacharelato em Literatura Comparada, antes de concluir um programa de desenvolvimento executivo em gestão e administração na IESE Business School da Universidade de Navarra, em Barcelona, Espanha.
De acordo com a nota biográfica divulgada pelo imamat ismaili, o mais velho de três filhos do príncipe Aga Khan integra os conselhos administrativos de várias agências da AKDN e tem seguido, de forma próxima, o trabalho do Instituto de Estudos Ismaelita e das instituições de governação social da comunidade.
É presidente do comité executivo do Fundo para o Desenvolvimento Económico (AKFED) e supervisiona o ciclo anual de planeamento orçamental da instituição.
Rahim Aga Khan preside também ao Comité para o Ambiente e o Clima, que lidera o trabalho da rede na proteção ambiental e mitigação dos efeitos das alterações climáticas, o que inclui um compromisso em garantir que as operações globais da rede atingem zero emissões líquidas de carbono até 2030.
Tem acompanhado o trabalho da comunidade no âmbito das respostas às necessidades dos mais pobres e apoio à melhoria das suas condições de vida através da educação, formação e empreendedorismo.
Rahim Aga Khan vive em Genebra, Suíça, e tem dois filhos com a princesa Salwa: Irfan, nascido em 2015, e Sinan, nascido em 2017.
Ao suceder ao pai, príncipe Karim Aga Khan IV, Rahim torna-se o 50.º Imã hereditário dos muçulmanos ismaelitas e adota a designação de príncipe Rahim Aga Khan V.
(com Lusa)