Ana Sofia Ferreira: “Fiquei surpreendida com a resiliência dos portugueses perante condições de vida tão difíceis”

No dia em que se comemoram os 50 anos do 25 de Abril, a Forbes Portugal fala com Ana Sofia Ferreira, a autora do livro 'A vida quotidiana no Estado Novo'. Fomos perceber como era o dia-a-dia dos portugueses e que pontos comuns esses tempos têm com a situação atual no país. O que a…
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50 anos depois da revolução que colocou fim ao regime do Estado Novo, Ana Sofia Ferreira escreve sobre o quotidiano dos portugueses antes do 25 de Abril.
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No dia em que se comemoram os 50 anos do 25 de Abril, a Forbes Portugal fala com Ana Sofia Ferreira, a autora do livro ‘A vida quotidiana no Estado Novo’. Fomos perceber como era o dia-a-dia dos portugueses e que pontos comuns esses tempos têm com a situação atual no país.

O que a levou a escrever sobre este tema?

O desafio de escrever sobre a quotidiana no Estado Novo foi-me lançado pela editora Manuscrito, mas vinha de encontro aos meus interesses de pesquisa. Nos últimos anos tenho-me dedicado ao estudo da história social, com particular interesse o que se considera a “história dos debaixo”, ou seja, das pessoas comuns em detrimento de uma história das elites dos grandes políticos e líderes militares e dos grandes acontecimentos. Acho que em Portugal esta é uma corrente historiográfica que falta desenvolver, pois grande parte da historiografia ainda é dominada por uma história das elites. Este livro é um contributo importante para a compreensão de como era a história das pessoas comuns durante o Estado Novo, tendo em atenção que nos 48 anos que vivemos em ditadura, a vida quotidiana também foi sofrendo transformações, acompanhando as mudanças económicas, sociais e culturais do país. É esta história, a das pessoas comuns, que me interessa fazer.

Como era o dia-a-dia de quem viveu o Estado Novo?

Obviamente que o dia-a-dia de quem viveu o Estado Novo depende da época e do local em que se viveu. No geral, era uma vida de trabalho duro, com muitas horas a trabalhar numa fábrica ou na agricultura. Não nos podemos esquecer que até aos anos de 1960, Portugal era um país rural, em que a maioria da população vivia nas zonas rurais. Uma parte significativa da população vivia miseravelmente, com enormes dificuldades económicas, em habitações extremamente precárias e deficitárias, sem condições de higiene e salubridade. A fome grassava nas classes populares. Mesmo a pequena classe média vivia com muitas dificuldades económicas. Os tempos de descanso e de lazer eram escassos, principalmente para as mulheres que tinham de articular o trabalho fora de casa com a vida doméstica, a lida da casa e o cuidado dos filhos. Era, essencialmente, um dia-a-dia passado a trabalhar, com alguns momentos de descontração, como as festas, as romarias, a feira popular ou uma ida ao cinema ou ao teatro de revista.

Quais foram as coisas que mais a surpreenderam durante o processo de recolha de informação para este livro?

Fiquei surpreendida com a resiliência dos portugueses perante condições de vida tão difíceis. Mas, também, como se mantiveram formas de resistência e de solidariedade, mesmo sob a sujeição a uma ditadura que pretendia controlar todos os aspetos da vida das pessoas, desde o nascimento até à morte. A resistência também se fazia no quotidiano, quando as mulheres iam trabalhar mesmo que o regime determinasse que o seu papel era em casa; quando parte dos assalariados agrícolas alentejanos optavam por viver juntos em vez de casar formalmente pela Igreja; quando as raparigas começam a usar calças, minissaia ou bikini, contra as regras impostas pela moral conservadora vigente. Só para dar alguns exemplos.

Que testemunho mais a marcou?

Acho que os testemunhos sobre os abortos, quer os que me foram transmitidos diretamente, quer os que li em revistas e livros, foram os que mais me impressionaram. As condições em que se praticava o aborto clandestino, a falta de conhecimento e de meios de acesso à contraceção, a quantidade de vezes que as mulheres abortavam, com riscos sérios para a sua saúde, o uso de agulhas de tricot, de pés de salsa, de paus para abortar. As sequelas físicas e psicológicas que se mantiveram até aos dias de hoje. São relatos absolutamente dramáticos. Depois, os relatos da miséria, da sardinha que tinha de ser para duas ou três pessoas, da discriminação que as crianças mais pobres sofriam na escola, do trabalho infantil.

No livro fala sobre as mulheres no Estado Novo. Como descreve a realidade dessas mulheres?

Na ideologia do Estado Novo as mulheres deviam estar confinadas ao lar, aos cuidados da casa e da família, submissas ao marido, que detinha toda a autoridade. Não nos podemos esquecer que a taxa de analfabetismo feminino era extremamente elevada, as mulheres não podiam exercer certas profissões, como a magistratura ou a diplomacia, o marido tinha o direito de abrir a correspondência da mulher ou de anular o seu contrato de trabalho e estas não podiam sair do país sem autorização do marido. No entanto, grande parte das mulheres da classe popular e até da classe média trabalhava, pois os baixos salário não permitiam que o salário masculino fosse suficiente para sustentar a família. As mulheres tinham todo o tipo de profissões: eram agricultoras, operárias, lavadeiras, costureiras, criadas de servir, vendedoras ambulantes, feirantes, pescadoras, etc. A violência doméstica era uma realidade quotidiana, encarada com normalidade. E eram as mulheres as responsáveis por todas as tarefas domésticas e pelo cuidado dos filhos e dos mais idosos. Nas classes mais abastadas também se fazia sentir esta divisão de género, pois continuavam a ser elas as responsáveis pelo governo da casa, mesmo que tivessem criadas que fizessem esse trabalho.

No primeiro ponto do livro fala sobre a ascensão de Salazar e a ideologia do Estado Novo. Consegue encontrar pontos em comum com o momento político atual?

É sempre perigoso fazermos comparações com o passado, até porque a história nunca se repete, mas é certo que estamos num momento de ascensão da extrema-direita e de crise dos sistemas liberais, tal como aconteceu nos anos 30. Há um descontentamento das pessoas em relação ao Estado e as medidas neoliberais causaram profundas desigualdades e injustiças sociais. A extrema-direita alimenta-se do medo, do sofrimento, do descontentamento social e do ressentimento contra o Estado e as elites. Nisto, há pontos de semelhança com os anos 30.

E em relação ao dia-a-dia, ainda há pontos comuns?

É óbvio que houve mudanças estruturais significativas na sociedade portuguesa, que se democratizou e modernizou. Houve melhorias significativas ao nível do combate ao analfabetismo, aumento da escolarização, procura de maior igualdade de género, dos direitos das mulheres, no acesso à cultura, uma melhoria das condições de vida da maioria dos portugueses. No entanto, ainda persistem pontos em comum: as longas jornadas de trabalho, o acumular de mais de um emprego para fazer face às despesas do dia-a-dia, os baixos salários, a desigual distribuição das tarefas domésticas. Apesar de os homens, atualmente, encararem as tarefas domésticas como algo que os dois devem fazer, os estudos ainda nos mostram que são as mulheres que suportam a maioria destas tarefas, dedicando mais de 2h30 diárias ao trabalho não remunerado. E também são as mulheres que realizam a maioria das tarefas dedicadas à educação dos filhos. A entrada em massa das mulheres no mercado de trabalho, a partir dos anos 60, não significou a plena igualdade em relação aos homens, mesmo no dia-a-dia. Tal como as suas mães e avós, o dia-a-dia de muitas mulheres nos dias de hoje é uma correria entre a casa, o trabalho e o cuidado dos filhos.

Além disso, apesar da modernização do país, alguns costumes tradicionais ainda se mantêm: o Natal como a principal festa da família, a celebração de rituais católicos, como o batizado e a comunhão, a comemoração dos Santos Populares, a importância das romarias, a ida ao cemitério para honrar os mortos no dia 1 de Novembro, a visita do compasso pascal em várias localidades do país. São momentos de escape, de euforia, de celebração, de manutenção de laços familiares e sociais, de vida em comunidade que ainda se mantêm atualmente.

O que é que espera que os leitores tirem deste livro?

Espero que os leitores compreendam como era a vida da pessoa comum no Estado Novo, em que uma parte significativa da população vivia na pobreza, mesmo trabalhando, habitava casas em péssimas condições de higiene e salubridade, tinha pouco para comer ou passava fome. Uma sociedade dividida, em que os filhos das classes populares não tinham praticamente possibilidades de ascensão social, em que a escola reproduzia as diferenças socias e em que a escolaridade dos mais pobres se restringia a aprender as letras e a fazer contas. Quero que percebam que era uma sociedade profundamente desigual e marcada pela violência: as violências do Estado sobre a pessoa comum, do patrão sobre o operário, do proprietário agrícola sobre o assalariado rural, do homem sobre a mulher, dos pais sobre os filhos. Mas, também quero que compreendam que houve espaço para encontrar formas de lutar contra a adversidade, de forjar redes de solidariedade e resistência e de sonhar com futuro melhor e um Portugal diferente.

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