Estaremos nós a olhar para a ponta do iceberg?

O mais recente estudo da McKinsey “Women Matter Iberia” aponta que, aquando de um novo desafio, 85% das mulheres acreditam ter igual oportunidade de progressão que um homem na mesma posição. Ao fim de 5 anos, o número desce abruptamente para 59%. E porquê? A explicação, acredita-se, prende-se ao facto de a mulher estar ligada…
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A mulher ouve mais, cria mais, planeia mais, preocupa-se mais com a evolução dos que estão ao seu redor. E, contudo, quem encontramos na maioria das vezes a liderar equipas e empresas são homens.
Empreendedores Tecnologia

O mais recente estudo da McKinsey “Women Matter Iberia” aponta que, aquando de um novo desafio, 85% das mulheres acreditam ter igual oportunidade de progressão que um homem na mesma posição. Ao fim de 5 anos, o número desce abruptamente para 59%. E porquê? A explicação, acredita-se, prende-se ao facto de a mulher estar ligada intrinsecamente a cargos de suporte e não a funções de gestão ou negócio. Se falarmos de funções de gestão em áreas de Tecnologia ou Transformação Digital, o número desce ainda mais. Mas estaremos nós a olhar para a ponta do iceberg ou há uma explicação escondida nas profundezas?

Ainda no ensino secundário, levamos (maioritariamente de forma inconsciente) com a crença de que as boas alunas seguem áreas de saúde e não de engenharias. Nas faculdades, os núcleos e cursos ligados a áreas de tecnologia, sistemas de informação, informática têm uma percentagem reduzida de mulheres, felizmente cada vez mais, mas ainda longe do ótimo 50%- 50%.

A nossa sociedade aprendeu a palavra machismo e autointitula-se como anti machista. Essa mesma sociedade que leva a que as mulheres façam escolhas a medo e se boicotem com quotas estabelecidas pelas empresas, acreditando que estes são os verdadeiros motores para a igualdade de género em funções de gestão de topo e para contratação de poder feminino.

O que não nos apercebemos, no meio de leis e regras tão atrativas, é que aquilo que aparentemente nos aproxima de melhores posições é também um passo atrás quando falamos de equidade. A equidade pressupõe igualdade de oportunidades, mas dizem-nos os números que uma mulher tem de trabalhar 3x mais que um homem para ter o mesmo reconhecimento. Não interpretem mal: as quotas são um mecanismo ótimo para lutarmos contra as imposições absurdas que a sociedade define desde os primórdios da evolução, mas serão o mecanismo mais correto para estarmos no mesmo patamar que os nossos pares masculinos?

Os entendidos na matéria afirmam que é na educação que está a resposta a quase todos os males. Falar de educação é ambíguo, mas apontemos as questões específicas para reflexão:

  • O que estamos a ensinar desde a pré-escola e nos livros que lemos à noite aos mais pequenos? Que as meninas são princesas e os meninos heróis? Não abortemos a Disney, mas contemos também a história da Amelia Earhart que tentou dar a volta ao mundo, da Marie Curie e da radioatividade ou da Jane Austin que em 1810 se recusou a não criticar a forma como a sociedade via o papel da mulher nas suas páginas;
  • Como falamos com uma ótima aluna no 9.º ano que não sabe que área escolher? Estamos a incentivar a que opte primeiro por ser uma ótima jornalista, médica, técnica de saúde, professora, ou falámos da imensidão de engenharias em que pode sair do espectro e inquirir o as usual?
  • Nas faculdades, quem dirigimos primeiro para a investigação? A quem não castramos as metodologias pouco convencionais com que se abordam projetos ou as ideias fora da caixa, porque existe um plano a seguir e entendidos que se esforçaram para implementar algo?
  • Nas empresas, quem colocamos a gerir os projetos difíceis na expetativa que o conhecido multitasking feminino resulte, ou que falhe redondamente vs. a quem são atribuídos os planos de formação e os projetos mais desafiantes estrategicamente? Quem colocamos à frente de uma equipa de IT ou de uma área de transformação digital?

Para todas estas perguntas, normalmente, não é uma mulher a primeira escolha.

Dizem-nos os números que empresas e equipas lideradas por mulheres são 79% mais satisfeitas do que as lideradas por homens. Mas não se enganem, a mulher é tão imperfeita como o homem e o homem tão perfeito quanto a mulher por si só.

O diferencial reside no facto de a mulher ter sido educada a ter de ser melhor em qualquer situação. Nesse sentido, ouve mais, cria mais, planeia mais, preocupa-se mais com a evolução dos que estejam ao seu redor. Por baixo da ponta do iceberg encontra-se a educação, a mentalidade das sociedades, a empatia, o anti machismo. E não era bom guiarmos todos na direção da equidade?

Maria Melo
Senior Lean Project Manager – Reengenharia de Processos

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