Exclusivo: Já conhece a raquete de padel desenhada por Siza Vieira?

No atelier de Álvaro Siza Vieira, com vista para o rio Douro, há materiais de desenho e maquetes em cima das mesas, planos afixados nas paredes e papeis espalhados por vários cantos. Anos e anos de trabalho vivem neste espaço. Pousada na mesa do escritório está uma caixa de madeira que o arquiteto, o primeiro…
ebenhack/AP
Marca portuguesa Quad Padel desafiou Álvaro Siza Vieira a desenhar uma raquete de padel. Há 90 exemplares comemorativos dos 90 anos do arquiteto.
por
Forbes Life Negócios Sports Money

No atelier de Álvaro Siza Vieira, com vista para o rio Douro, há materiais de desenho e maquetes em cima das mesas, planos afixados nas paredes e papeis espalhados por vários cantos. Anos e anos de trabalho vivem neste espaço. Pousada na mesa do escritório está uma caixa de madeira que o arquiteto, o primeiro português a ganhar o Prémio Pritzker, analisa com atenção – passa as mãos pelo desenho cravado na madeira e lê um pequeno livro com alguns detalhes. É lá dentro que está guardado o novo projeto que conta com a arte dos seus traços: uma raquete de padel desenhada por si, num desafio proposto pela marca portuguesa Quad Padel.

“Espero que isto dê para algum primeiro lugar, mas isso já não é da minha responsabilidade”, comenta, em jeito de brincadeira, enquanto passa os olhos pela raquete que idealizou. A partir de agora, Álvaro Siza entra também em campo no mundo do padel, o desporto do momento, ao desenhar uma raquete para a Quad. No total, há 90 exemplares produzidos, que assinalam os seus 90 anos de vida. E acima de qualquer uso desportivo que possa ter, é uma raquete que celebra a obra do arquiteto. A prova de que o desporto pode também ser arte.

A raquete Siza Vieira vai ser distribuída por alguns museus e instituições do país e estará também disponível para compra online, no valor de 1.900 euros. É mais uma obra do arquiteto que continua a desbravar novos campos: já desenhou coleções de roupa, acessórios, artigos de decoração e, agora, entrou no desporto. “Na televisão, que dá tanto desporto, não tenho visto este, o padel, mas sei que já há muita gente que pratica este desporto, incluindo o meu neto”, conta à Forbes. O seu neto que, aliás, também ajudou no desenho desta raquete.

Uma raquete redonda e ecológica

Siza aceitou o desafio depois de explorar melhor o que era este mundo em crescendo do padel. A raquete que desenhou tem uma forma redonda, circular e simétrica, inspira-se no azul, no verde e no castanho e é mais orientada para o controlo e principalmente destinada a quem está a começar agora na modalidade. No seu desenho, surgem várias figuras, desde um rosto a sorrir a um relógio que marca o tempo através da furação de 24 pontos (12 horas e 12 meses) e ainda a figura de um pássaro. Sempre acompanhado de linhas suaves e com alguns números indicadores de medidas – “podia não estar lá, mas achei piada marcar o sistema geométrico”, comenta Siza Vieira.

A inspiração para o desenho, revela o arquiteto à Forbes, surgiu quase naturalmente, depois de ver a forma redonda da raquete, mas também a partir de outras memórias. “Quando fazemos um projeto – seja uma casa, um tapete, uma raquete – as ideias vêm, em geral, por recordações, do subconsciente. Em parte foi um ato voluntário, porque tinha de fazer o que me tinha sido encomendado, mas, depois, o que a mão e a mente traçam vem muito do subconsciente. Não é um ato somente de racionalidade e de estudo, vem também espontaneamente, com uma série de reflexões que nos surgem ao considerarmos aquela encomenda. Uma encomenda que eu nunca esperaria: fazer uma raquete”, explica. Ele que nunca tinha desenhado nada para nenhuma modalidade desportiva – “nem raquete de ténis, nem nada”.

O método de trabalho e de inspiração para desenhar uma raquete ou outro objeto é diferente?, perguntamos. Álvaro Siza Vieira acredita que há diferenças naturais: “Não sei se haverá exceções, mas todo o trabalho aparece com um passado. A maneira é diferente porque cada tipo de objeto, com a sua função e o seu uso, tem um passado. Vai havendo uma evolução. Aqui também terá havido, por exemplo, nas regras do jogo do padel, mas parte tudo de um passado. Depois, a inovação corresponde ao que evoluiu o uso, a finalidade do objeto em questão”.

Para Vasco Carvalho, fundador da Quad, Siza é “uma referência mundial na área da arquitetura e na área do design de vários objetos” e, por isso, a empresa quis desafiá-lo a desenhar também uma das suas raquetes. “Sou um apaixonado pelas obras de Álvaro Siza Vieira. Vejo isto também como uma obra de arte, como algo realmente diferenciador, com um design fora do normal e único no mercado. Além de ser utilizada para jogar padel, a raquete pode também estar exposta numa sala, num escritório ou algo parecido”, explica.

A sustentabilidade é também um dos grandes valores aplicados nesta nova raquete, uma vez que é produzida com material reciclado, desde fibras de carbono reciclado a gomas de poliolefina, de base biológica, que utilizam resíduos da cana-de-açúcar. “Além de ser uma obra de arte, queríamos que houvesse uma vertente ambiental e de sustentabilidade importante”, reforça Vasco Carvalho.

Começou como hobby e já fatura mais de um milhão de euros

Antes de o resultado final ir parar às mãos de Siza Vieira, a raquete esteve em fase de testes e de produção em Braga, onde se encontra a fábrica da Quad. É lá que decorrem todas as 12 fases, minuciosas, de produção das raquetes de padel, desde o corte da matéria-prima à moldagem, remoção de excessos, lixagem, pintura e verniz e muitos outros processos.“Produzir, produzir, produzir com qualidade”, lê-se escrito num quadro branco pendurado na parede mesmo ao lado de uma das salas de trabalho. Foi precisamente a pensar na produção de qualidade que Vasco Carvalho decidiu criar a Quad, em 2020, juntamente com Tomás de Oliveira.

Com negócios em áreas diferentes, Vasco começou a dedicar-se de forma mais intensa ao padel em 2018. “Jogava umas três vezes por dia. Era uma pessoa completamente viciada e um aficionado da modalidade. Acabei por querer que o meu futuro passasse também por algo que estivesse relacionado com a modalidade e foi daí que surgiu a vontade de criar uma marca de padel”, explica.

Em Portugal (e na Europa), encontrou uma oportunidade para focar a estratégia comercial num contacto mais direto com as marcas e clubes, em vez de se cingir ao negócio online. Encontrou também um mercado ainda com pouca oferta de qualidade: “A nível de produto, mais de 90% das raquetes de padel são produzidas na China ou no Paquistão. O método construtivo deles, os princípios de qualidade, de fabrico e de materiais são diferentes daquilo em que nós acreditamos”. Era preciso algo novo e diferente. E assim nasceu a Quad, a primeira fábrica portuguesa de raquetes de padel em carbono.

A marca começou por produzir raquetes num espaço localizado em Espanha. Em 2021, sete meses depois de iniciar o negócio, a Quad começava a ter um número crescente de encomendas que tornou insustentável a produção no país vizinho. Foi aí que os responsáveis decidiram dar um passo em frente e abrir a Quad Factory, uma unidade de produção própria em Braga, garantindo o controlo da qualidade do produto e das entregas.

Na altura, explica, o objetivo não era ter uma empresa de grandes dimensões: “Quando fiz o meu primeiro business plan tinha previsto para o primeiro ano faturar 70 mil euros. Queria fazer umas raquetes, vender aos amigos e jogar com elas. Era mais um hobby. Mas nos primeiros sete meses faturamos cerca de 400 mil euros. Foi a partir daí que a marca começou a crescer”. E nunca mais parou. No ano passado, o primeiro ano a funcionar e a produzir em pleno, a Quad atingiu mais de um milhão de euros de faturação. Para este ano, o objetivo é chegar próximo dos dois milhões.

Atualmente, a marca produz entre 800 e 900 raquetes de padel por mês, desde raquetes de formato redondo, lágrima, diamante e de modelo híbrido, dependendo do objetivo de cada atleta no jogo. Cada raquete custa entre 270 a 430 euros e a marca está presente em cerca de 60 pontos de venda em Portugal, desde lojas de clubes a lojas da modalidade, produzindo ainda para vários mercados internacionais.

Quando perguntamos a Vasco o que tem provocado um crescimento tão grande do padel, o empreendedor não tem dificuldades em enumerar o que torna esta modalidade num sucesso. “Em primeiro lugar, é um desporto que mesmo quando se joga a primeira vez é fácil, as pessoas divertem-se. Depois, permite que alguém com uma idade mais tardia também possa competir e ser atleta. E, em terceiro lugar, é um desporto de duplas que acaba por ter uma parte social muito forte. Para além de um jogo de padel por si só, os praticantes acabam por conviver muito fora do campo”, refere.

Segundo a consultora All United Sports, o padel foi, em 2023, a modalidade que mais cresceu tanto a nível mundial como em Portugal, onde registou cerca de 200 mil praticantes. Vasco acredita que nos próximos 15 ou 20 anos “o padel vai estar a um nível do ténis” em termos de número de participantes. E acrescenta um detalhe que permite perceber melhor a dimensão desta perspetiva: “Ao dia de hoje, o número de praticantes de padel em Espanha já passou ou está muito próximo de ultrapassar o número de praticantes de futebol. Se em Portugal não passou, está muito próximo de passar. Isso já é um indicador interessante”.

Para o futuro, a Quad também quer crescer: apostar em mercados mais europeus, mas também na América do Sul e em Miami, nos Estados Unidos. A marca já iniciou também a produção de raquetes de pickleball, uma outra modalidade que também tem tido um grande crescimento. Em simultâneo, continua a apostar na produção de vestuário e acessórios de padel. E agora tem na sua história uma raquete saída das mãos de Álvaro Siza Vieira.

Mais Artigos