Forbes Health Care Summit: “Não podemos entregar a regulação da IA aos deputados”

A Inteligência Artificial (IA) não vai substituir o homem nos serviços de saúde, mas vai ajudar a ter melhor soluções na saúde. Será uma das ferramentas essenciais para afastar os médicos dos computadores e voltar a humanizar a relação entre médico e paciente. Esta foi uma das conclusões do painel a Inteligência Artificial na Vida…
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Ricardo Baptista Leite, CEO da Health AI, participante no painel sobre a Inteligência Artificial, no evento da Forbes, refere que a regulação tem de partir da colaboração com a iniciativa privada.
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A Inteligência Artificial (IA) não vai substituir o homem nos serviços de saúde, mas vai ajudar a ter melhor soluções na saúde. Será uma das ferramentas essenciais para afastar os médicos dos computadores e voltar a humanizar a relação entre médico e paciente. Esta foi uma das conclusões do painel a Inteligência Artificial na Vida Real, que decorreu hoje em Lisboa no Hotel Doubletree By Hilton Lisboa, no qual participaram três especialistas: Ricardo Baptista Leite, CEO da organização mundial Health.AI, Nuno Prego Ramos, CEO da Valvian e Sérgio Ferreira, partner da EY e especialista em IA.

“Temos de tirar o computador da relação entre o médico e o paciente, e voltar a reaproximar a relação humana entre o profissional de saúde e o paciente”, diz Ricardo Batista Leite.

Ricardo Baptista Leite começou por referir que, num estudo realizado por uma associação médica americana, vários doentes questionaram médicos online e metade das respostas foram dadas por médicos reais e a outra metade por máquinas. Curiosamente, o estudo demonstrou que as máquinas ganharam: conseguiram ter informação mais rapidamente e mais correta. Além disso, os doentes mostraram que em relação ao que diz respeito à empatia, também as máquinas ganharam. “Isto deixa matéria para reflexão”, diz o especialista, que refere que as máquinas são mais consistentes, pois há inúmeros fatores que interferem na decisão humana.

Ricardo Baptista Leite, em primeiro plano; Nuno Prego Ramos em segundo plano. Foto/Cristina Bernardo

Para ele é fundamental que hoje se possa aproveitar a potencialidade da IA, pois estas podem acabar com uma série de tarefas burocráticas que hoje ocupam cerca de 70% do tempo médio dos doentes. “Temos de tirar o computador da relação entre o médico e o paciente, e voltar a reaproximar a relação humana entre o profissional de saúde e o paciente. Mas também temos de garantir que esta tecnologia possa ajudar numa decisão cada vez mais personalizada para assim melhoramos em ganhos para a saúde”, diz o especialista. Adianta ainda que o que está a acontecer é que atualmente os sistemas de saúde estão a tornar o homem em máquinas, e o que se precisa não é afastar o homem, mas sim que os médicos reencontrem o seu papel como seres humanos.

Dados para investigação nem sempre são confiáveis

Já Nuno Prego Ramos diz a propósito da utilização dos chatbots, como ChatGPT, que a Valvian, biotecnológica que nasceu para desenvolver terapias inovadoras nas áreas da oncologia, do envelhecimento e da longevidade, acredita que a IA poderá ter um importante papel na forma como se descobrem novos medicamentos. Há dados que são necessários para fazer novas descobertas e a IA vai facilitar o acesso a estes dados e no futuro poderá ter um papel importante na descoberta de medicamentos.

“Uma má pergunta leva a uma resposta incorreta. E isto pode levar a uma perceção de que temos uma informação verdadeira, quando não é“, refere Nuno Prego Ramos.

Alerta ainda que é necessário que as pessoas percebam que nem toda a informação científica disponível na internet é credível: os chatbots têm muita informação disponível, mas nem toda é credível e além disso, tudo depende da forma como os utilizadores fazem as suas perguntas. “Uma má pergunta leva a uma resposta incorreta. E isto pode levar a uma perceção de que temos uma informação verdadeira, quando não é“, refere.  E isto é muito relevante para quem, tal como a sua equipa, está a trabalhar com estas bases de dados e a tentar fazer algum desenvolvimento assumindo que estas informações são verdadeiras, isso torna-se um problema.

Nuno Prego Ramos, CEO da Valvian. Foto/Cristina Bernardo

O mesmo especialista adiantou que toda a gente publica dados, mas muitos não são confiáveis: veio a público que há mais de 10 mil papers errados ou fraudulentos, na internet e, portanto é destes dados que a IA se alimenta, o que traz alguns riscos acrescidos, sobretudo para as áreas de investigação como a sua.  

Tecnologia: seres humanos têm de estar no centro de tudo

Sérgio Ferreira, parter da EY e especialista em IA, diz “As máquinas são criadas à nossa imagem, são treinadas com a informação que nós dispomos, por isso se treinarmos mal, não vão funcionar bem. Ressalva ainda que vamos perceber que as máquinas vão ser mais inteligentes que nós, e que irá até surgir uma nova espécie humana dentro de 100 ou 200 anos. Para ele, o mais importante da IA é que já está a mudar a forma e a nossa capacidade de trabalhar, e é uma tecnologia que vai tornar mais democrático o acesso ao conhecimento, que está a agora acessível só com um clique no computador ou no smartphone. “

“Temos de criar impacto benéfico e antecipar doenças antes mesmo de elas existirem, criar medicamentos e tratamentos personalizados”, diz Sérgio Ferreira.

“Muitas indústrias já a estão a utilizar a IA, e a saúde parece-me que é um ótimo espaço para usar a IA na sua transformação. Temos de criar impacto benéfico e antecipar doenças antes mesmo de elas existirem, criar medicamentos e tratamentos personalizados”, diz o especialista.  Acrescenta que hoje já podemos antecipar doenças antes mesmo de delas existirem e criar assim medicamentos e tratamentos para as características de cada um, devido aos avanços do genoma humano, em muito proporcionado pela utilização da IA. “Mas, por muito que a tecnologia pareça importante, são os seres humanos que têm de estar no centro de tudo”, diz.

Sérgio Ferreira, partner da EY. Foto/Cristina Bernardo

E reforça: a IA representa uma oportunidade para situações como o facto de os médicos estarem metade do seu tempo em tarefas administrativas, libertando-os destas tarefas. Acrescenta que o que está a acontecer com a IA é que estamos a criar co-pilotos que apoiem os médicos, e não que os substituam. “Gostaria de ver as máquinas como co-pilotos e não como comandantes. Seríamos muito estúpidos se passássemos para as máquinas tudo o que sabemos”, remata.

Regulação leve e eficaz precisa-se

Em relação à IA nas tarefas administrativas, Ricardo Baptista Leite refere que é fundamental que quem tiver a responsabilidade de implementação destes sistemas crie métricas de qualidade, que hoje não existem. Aliás, hoje ninguém questiona o que é uma avaliação, o que é um ensaio clínico e ninguém questiona o processo de acesso ao mercado, e o mesmo se aplica aos dispositivos médicos. “Hoje um dispositivo médico, para ser usado no sistema de saúde, passa por um conjunto de trâmites que são inspirados em muitas das ferramentas de inteligência artificial”, diz. Acrescenta que tem ouvido que não se deve implementar tecnologia se houver riscos, mas esta é uma abordagem errada, porque até os seres humanos apresentam riscos. Ou seja, “Temos de ter é uma filosofia regulamentar que diminua o risco ao máximo,, por um lado e que garanta que consiga detetar eventuais falhas, tal como falham os seres humanos”.

“Hoje, muitas vezes bate-se numa parede de incompreensão ou de desconfiança e precisamos que quem esteja a gerir o sistema de saúde tenha uma mentalidade aberta, para trabalhar com as várias empresas e entidades”, refere Ricardo Batista Leite.

Para ele é preciso criar a capacidade para garantir que as tecnologias que queiram entrar nos sistemas de saúde passem por processos de validação que garantam ainda que os parâmetros da IA são cumpridos e pôr em marcha um plano de vigilância. Alerta que a regulamentação ainda não acompanhou o desenvolvimento da tecnologia, embora países como os Estados Unidos, o Canadá, a Noruega, Singapura e Nova Zelândia já estão avançados nesta matéria. O setor privado tem aqui um papel fundamental, está a criar um ecossistema que promove a inovação e só quando tivermos entidades governamentais que entendam esta nova realidade tecnológica é que se vai avançar. 

“Hoje, muitas vezes bate-se numa parede de incompreensão ou de desconfiança e precisamos que quem esteja a gerir o sistema de saúde tenha uma mentalidade aberta, para trabalharem com as várias empresas e entidades”, refere. Adianta ainda que tendo sido deputado durante quatro mandatos sabe que “Não podemos entregar a regulação da IA aos deputados. Estes não conseguem acompanhar o que o mercado precisa. Precisa de legislação leve e eficaz, temos de fortalecer a legislação, temos de ter pessoas que compreendam a tecnologia, e se não tivermos a esfera legislativa não vai acompanhar e os países começam a ficar para trás”, remata.

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