António Nogueira Leite, presidente da Forum Oceano, revelou, durante o painel Economia Azul, do evento Forbes Annual Summit, que “há pouco capital residente, mas há muito capital estrangeiro para investir na economia do mar em Portugal”, alertando também que os investidores olham para o oceano como um todo e não numa perspetiva meramente nacional. Este responsável, que está à frente do cluster da economia do mar desde 2015, admitiu estar no final dos seus mandatos pois acredita que “as pessoas não podem ficar em órgãos deste género ad eternum” e afirma ainda que a sua política à frente do Forum Oceano sempre foi low profile, pois, no passado começou-se, com muita ambição, a mostrar o que ainda não existia, criando muita expectativa. “Para um setor como este, em que o potencial é efetivamente grande, criámos muitas expetativas. Quando se começou a falar valia 3% do PIB e agora vale 6%, sendo que a maior contribuição vem do turismo de mar”, afirmou. Diz ainda que “existe dinamismo no setor, mas que continuamos a não conseguir realizar o enorme potencial que temos”.
O Forbes Annual Summit, dedicado ao tema “Empower the Future” reuniu esta terça-feira líderes de várias áreas para debater questões como a responsabilidade social, economia do mar, a transição energética, a transformação digital e a importância dos valores ESG. No painel dedicado à Economia Azul participaram, além de António Nogueira Leite, Manuel Tarré, presidente e fundador do Grupo Gelpeixe, e Nuno Matos, CEO da Eco Oil.
Durante este painel, António Nogueira Leite, referiu que uma das bandeiras do Forum Oceano, que tem mais de 150 membros, é colocar Portugal no radar dos grandes investidores da economia azul, e isso é materializado de várias formas. Uma delas é através de uma plataforma que põe em contacto financiadores e investidores, e que já tem mais de mil aderentes. Refere ainda que apesar de tudo Portugal, para país marítimo tem uma dimensão razoável, apesar de estar muito centrado no turismo que, produz muito volume, mas gera pouco valor acrescentado.
Pescado nacional: exportações aumentaram para os 1.500 milhões de euros
Já Manuel Tarré, ligado à indústria portuguesa da transformação do pescado e presidente da ALIF – Associação da Indústria Alimentar pelo Frio, refere que “a indústria portuguesa está bem apetrechada, investimentos são os adequados, temos capacidade excedente, basta ver as exportações: há 20 anos exportávamos 200 milhões de euros e este ano deveremos chegar aos 1.500 milhões de euros”. Diz ainda que Portugal é o terceiro maior consumidor per capita de peixe do mundo, com 580 mil toneladas de peixe consumido. Porém, destas, apenas 180 mil são nacionais, portanto é necessário importar 400 mil toneladas, que muitas vezes voltam a ser exportadas com a marca nacional. Para ele, a aquacultura vai continuar a ter um peso relevante, já que ultrapassou pela primeira vez, em 2022, o peso da pesca de mar.
Manuel Tarré afirma sentir-se defraudado com a questão do IVA, que deveria ser alinhado com o que se faz na Europa, pois um bem transformado em Portugal paga 23% de IVA quando na média europeia se paga um terço. “Se consumirmos um cherne, pagamos 6% porque não está transformado, se comermos um pastel de bacalhau pagamos 23%. Ou seja, não se alterou nada, isto é um insulto aos portugueses. Não é possível isto continuar, não se alterou uma linha neste tema que toca sobretudo às camadas mais pobres”, afirmou. Explicou ainda à audiência que precisamos de um Governo que se alinhe pelas melhores práticas europeias, mas que não mude constantemente as regras. António Nogueira Leite acaba por reforçar esta ideia: não se mudem as regras, a não ser as que estão efetivamente mal.
Eco-Oil quer investir na mobilidade
Neste painel participou ainda Nuno Matos, da Eco-Oil, uma empresa que produz o primeiro combustível do mundo, certificado como sustentável, feito a partir de resíduos gerados a bordos dos navios. Nuno Matos refere que a empresa surgiu em 2001 para tratar os resíduos da Lisnave e começou a perceber que os resíduos têm valor. Com eles criou um combustível industrial, 99% descarbonizado, com uma vertente sustentável, e tem como ambição chegar à área da mobilidade. “O nosso principal desafio é entrar na mobilidade e permitir que os veículos a diesel possam continuar a ser usados, utilizando combustíveis descarbonizados. Estamos a fazer parcerias com as universidades de Coimbra e vamos fazer três teses nesta matéria”, explicou à audiência. Nuno Matos entende que a eletrificação não é solução para tudo, pois temos de ponderar muito bem se faz sentido ambientalmente trocar frotas inteiras de veículos por outros quando pode haver combustíveis sustentáveis e descarbonizados.
Além disso, refere que a Eco-Oil está a investir num projeto idêntico ao que tem em Portugal, mas nas Bahamas, em frente a Miami, onde existe um elevado parque de navios, a base da sua atividade. A sua maior dificuldade neste negócio, que pertence a apenas um acionista, não é tanto a captação de capital, pois existem interessados em investir na área ambiental, mas sim os Recursos Humanos, pois são as pessoas que fazem a diferença.