2023 foi, nas palavras de Cláudia Azevedo, presidente executiva da Sonae, “um ano desafiante e complexo”, num contexto de incerteza e volatilidade, mas que acabou marcado por um “forte investimento e resultados financeiros sólidos”. O grupo detentor dos supermercados Continente fechou o ano passado com um lucro de 357 milhões de euros, mais 6,4% do que os 336 milhões conseguidos em 2022.
“Começamos com inflações alimentares altíssimas, com as taxas de juros mais altas dos anos mais recentes, com duas guerras – na Ucrânia e no Médio Oriente –, novas tecnologias a desenvolverem-se a uma velocidade muito forte”, enumerou Cláudia Azevedo, durante a apresentação dos resultados da Sonae, que decorreu esta quarta-feira na Maia. Apesar dos desafios, a CEO do grupo considera que o ano foi positivo e destacou o aumento do investimento feito e o trabalho contínuo “no compromisso para um futuro melhor”.
Segundo as contas apresentadas pela retalhista, o volume de negócios da Sonae atingiu os 8,4 mil milhões de euros no ano passado, mais 9,2% do que em 2022. Este crescimento, acrescenta em comunicado, deveu-se principalmente “ao crescimento da MC [onde estão integrados os supermercados Continente], que num exigente contexto competitivo reforçou a sua posição de liderança de mercado, e ao forte investimento na expansão dos negócios”. No ano passado, a MC abriu 21 novas lojas de retalho alimentar.
Já o investimento consolidado foi de 665 milhões de euros, mais 5% do que em 2022. Cláudia Azevedo destacou os “níveis altíssimos” de investimento e recorda que em 2020, ainda em altura pré-pandemia, o valor de investimento foi de cerca de 500 milhões de euros. “Hoje temos um aumento de 30% em cima de um número já muito grande. Estamos a investir fortemente em Portugal, com 515 milhões de euros, e também a investir a nível internacional, com 115 milhões”, referiu.
Quanto ao EBITDA (resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações), ascendeu a cerca de mil milhões de euros, “com a rentabilidade pressionada pelos esforços para absorver parte da pressão inflacionista, sobretudo nos formatos de retalho alimentar”. A empresa nota, ainda em comunicado, que a dívida líquida diminuiu 3%, para 526 milhões de euros.
O apelo aos partidos políticos: “Por favor, entendam-se”
Durante a conferência de imprensa desta quarta-feira, Cláudia Azevedo foi também questionada sobre a atual situação política em Portugal. A CEO da Sonae respondeu que as eleições legislativas que decorreram no passado domingo mostraram “um grito de mudança grande” e deixou o apelo aos partidos: “Entendam-se”.
“É muito importante que os partidos percebam que as pessoas votaram porque sentem que as políticas até hoje não tratam da sua vida”, reforçou, sublinhando, mais uma vez, a necessidade de um consenso político, nomeadamente em áreas como a justiça, a saúde e a educação: “Preocupa-me o cenário de Portugal estar sempre em eleições, mas preocupa-me mais a falta de políticas de futuro para Portugal. O meu apelo é que, por favor, entendam-se. As pessoas sentem que as políticas não estão orientadas para as pessoas”.
Taxa sobre lucros excessivos “não faz sentido”
Questionada também acerca do imposto sobre lucros excessivos que está a ser cobrado às empresas, Cláudia Azevedo voltou a sublinhar que “taxar o desenvolvimento das empresas não faz sentido”. “Se investimos 600 milhões de euros, é óbvio que vamos ter mais lucros”, explicou, acrescentando que “o número de empresas portuguesas que pagam impostos é muito baixo”. João Dolores, responsável financeiro da Sonae, revelou que foram apurados 1,3 milhões de imposto sobre lucro excessivo, mas que o grupo não reconhece o conceito de lucro excessivo e vai contestar o pagamento dessa taxa.
Já sobre a inflação e o que se pode esperar dos preços praticados nos supermercados este ano, Cláudia Azevedo disse ter a expectativa que a inflação baixe, sobretudo nos produtos alimentares, e que isso “será imediatamente refletido nas prateleiras”. A líder da Sonae ressalvou que o setor do retalho é “extremamente competitivo” e que tem sido feito um “esforço enorme” para evitar um aumento dos preços: “Fazemos um esforço enorme para termos poupanças, mas as coisas chegam-nos mais caras e o custo da mão-de-obra também aumentou muito”.