O ouro de Pedro Pichardo, a fuga de Cuba e a escolha por Portugal para ser feliz

“O Presidente da República felicita o atleta Pedro Pichardo pela conquista da medalha de ouro na prova de Triplo Salto nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Naquela que já é a melhor participação de sempre de Portugal nos Jogos da Era Moderna, Pedro Pichardo alcançou a glória do ouro olímpico, a quinta destas medalhas na história…
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O ouro conquistado por Pedro Pichardo em Tóquio é um exemplo do triunfo sobre dificuldades e a história de um refugiado que encontrou a felicidade em Portugal. “Never give up” é o seu lema.
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“O Presidente da República felicita o atleta Pedro Pichardo pela conquista da medalha de ouro na prova de Triplo Salto nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Naquela que já é a melhor participação de sempre de Portugal nos Jogos da Era Moderna, Pedro Pichardo alcançou a glória do ouro olímpico, a quinta destas medalhas na história de Portugal. Em nome de Portugal e dos Portugueses, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa felicita e agradece a Pedro Pichardo”.

O elogio ao atleta Pedro Pichardo, 28 anos, é da mais alta figura do Estado português, Marcelo Rebelo de Sousa, e coloca Pichardo entre os únicos cinco campeões olímpicos que Portugal teve, ao lado de Carlos Lopes (1984, na maratona), Rosa Mota (1988, na maratona), Fernanda Ribeiro (1996, nos 10 mil metros) e Nelson Évora (em 2008, no triplo salto).

O atleta alcançou a 5ª medalha de ouro para Portugal em toda a história dos Jogos.

A participação de Portugal em Tóquio 2020 foi, de resto, em crescendo: depois da prata de Patrícia Mamona na prova feminina do triplo salto e dos bronzes do judoca Jorge Fonseca (categoria -100 kg) e do canoísta Fernando Pimenta (K1 1.000 m), Pichardo obteve o ouro.

Foi a 28ª medalha para o país numas Olimpíadas, com Tóquio 2020 a superar as prestações conseguidas por Portugal em Los Angeles 1984 e Atenas 2004, edições nas quais obteve, em cada uma, três medalhas.

Outro dado: das 28 medalhas em Jogos Olímpicos arrecadadas por Portugal, cinco são de ouro (todas no atletismo), nove são de prata e 14 são de bronze.

Além do título olímpico, o salto de 17,98 metros de Pichardo ao terceiro ensaio, fez com que o atleta, que nasceu em Cuba, tenha garantido ainda um novo recorde português. E estes 17,98 metros são, até ao momento, a melhor marca mundial do ano no triplo salto.

Nascido em Santiago de Cuba, em Cuba, em 30 de junho de 1993, Pedro Pablo Pichardo é o mais novo de quatro irmãos, tendo passado por dificuldades financeiras quando vivia em Cuba. Mudou-se para Havana por falta de condições para treinar em Santiago e ia com o pai (e seu treinador), Jorge Pichardo, de comboio para as competições com a ajuda de amigos que lhes emprestavam dinheiro. O atleta chegou a ter de dormir nas bancadas dos estádios. “Never give up” é o seu lema.

Esta já é a melhor participação de sempre de Portugal numas Olimpíadas, com quatro medalhas.

Numa altura em que já era uma grande promessa do triplo salto mundial (duas medalhas de prata nos Campeonatos Mundiais de Atletismo, ainda como atleta de Cuba: em 2013 em Moscovo e em 2015 em Pequim), o atleta foi notícia em 2017, por ter desertado da seleção cubana num estágio em Estugarda, na Alemanha, motivo pelo qual está proibido de entrar em Cuba até 2025.

Motivos para escolher Portugal…

“A razão por ter escolhido Portugal? Tinha propostas de outros países mas foi o meu pai que escolheu Portugal. Falou comigo de Portugal, a dizer que o clima o fazia lembrar Cuba. E, quando cheguei, mudei e comecei a gostar do país. Vou ficar cá para sempre. Para Cuba, não volto mais. Não posso entrar no país mas, mesmo que pudesse, não está na minha cabeça voltar”, explicaria o atleta.

Em abril de 2017 assinou contrato com o Benfica e em dezembro desse ano conseguiu a nacionalidade portuguesa ao abrigo do estatuto de refugiado.

… e abandonar Cuba

Foram várias as razões que levaram o desportista a entrar em rota da colisão com a federação cubana. Em 2014 impediram-no de continuar a trabalhar com o pai (seu treinador) e foi castigado. Depois, começou a treinar com Ricardo Ponce e, além de não ter obtido grandes resultados desportivos, o atleta garantiu que o queriam obrigar a treinar lesionado.

Jorge Pichardo, o pai, deslocou-se a Havana para treinar o filho às escondidas, mas o atleta foi castigado um ano e esteve todo esse tempo sem competir. O pai ficou proibido de continuar a exercer a profissão de treinador.

Pichardo lesionou-se e, com os Jogos Olímpicos de 2016 no horizonte, alegou que a federação de Cuba o obrigava a continuar a competir mesmo com uma fratura de 7,4 milímetros no tornozelo, ameaçando-o com um novo castigo. Pichardo recusa ir aos jogos de Rio de Janeiro.

É um dos cinco atletas que já ultrapassou a barreira dos 18 metros, no Triplo Salto

Assina pelo Benfica e naturaliza-se português em 2017, mas somente em outubro de 2018 é que a Federação internacional de atletismo (IAAF) oficializou a sua nacionalidade portuguesa, com uma cláusula de exceção que lhe permitia competir com a camisola de Portugal nas grandes competições apenas a partir de 1 de agosto de 2019.

A sua mulher, Arialis Gandulla, atleta, de 100 e 200 metros, nasceu também em Cuba e, tal como ele, conseguiu a naturalização portuguesa, estando, igualmente, ao serviço do Benfica e foi mãe há pouco tempo.

O seu recorde pessoal: 18,08 metros

Pichardo tem como recorde pessoal 18,08 metros, alcançado em Havana, em maio de 2015.

Ele é um dos cinco atletas que já ultrapassou a barreira dos 18 metros, na modalidade, perseguindo o objetivo de bater o recorde do mundo, atualmente na posse do ex-atleta britânico Jonathan Edwards, agora com 55 anos e obtido no Campeonato Mundial de Atletismo de 1995, em Gotemburgo, Suécia.

Os maiores Triplo Saltos de sempre
Salto (metros) Atleta e nacionalidade Data do salto Local do salto
18.29 m  Jonathan Edwards (GBR) 7 de agosto de 1995 Gotemburgo
18.21 m  Christian Taylor (EUA) 27 de agosto de 2015 Pequim
18.14 m  Will Claye (EUA) 29 de junho de 2019 Long Beach
18.09 m  Kenny Harrison (EUA) 27 de julho de 1996 Atlanta
18.08 m  Pedro Pablo Pichardo (POR) 28 de maio de 2015 Havana

 

Já como português, em 2019, Pichardo foi quarto classificado no Campeonato do Mundo (em Doha). Em março de 2021 venceu o primeiro grande título com a bandeira de Portugal, sendo campeão europeu de pista coberta em Torun, na Polónia.

A 7 de março de 2021, em Torun, na Polónia, Pichardo venceu o título europeu em pista coberta, já por Portugal. INSTAGRAM/PICHARDOP6

Após a conquista do ouro em Tóquio no triplo salto, o desportista enrolou-se numa bandeira portuguesa, num agradecimento pelo modo como o país o acolheu: “Consegui fazer este salto e levar a vitória para o país. Quero dizer muito obrigado a todos, pela forma como me receberam desde o primeiro dia que cheguei a Portugal”, referiu nas suas primeiras declarações após a glória olímpica à RTP.

Minutos depois, na conferência de imprensa, o atleta repetiria o agradecimento pelo modo como Portugal o recebeu quando teve de sair de Cuba: “Este ouro tem um significado muito grande, pois é a única forma que tenho de agradecer ao país que me apoiou desde o primeiro dia. Agradecer com medalhas e bons resultados”.

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