Opinião

A transformação e ascensão do vinho português no mercado global. Vamos saber lidar com os ventos de mudança?

Cláudio Martins

Nos últimos anos, assistimos a alterações significativas no setor vitivinícola global, com especial destaque para categorias premium e super premium. Em Portugal, inclusive, o negócio do vinho viveu mudanças cruciais na última década, com os responsáveis pelas marcas a apostarem de forma estratégica na comunicação e promoção dos seus vinhos, designadamente os de posicionamento em segmentos altos, qualidade excecional, baixas quantidades, preços muito acima da média. De facto, qualidade, internacionalização e comunicação, são os três vetores principais desta transformação, que permitiram traçar e iniciar, uma caminhada no sentido de potencializar e posicionar os vinhos portugueses no mercado nacional e internacional.

Os ventos de mudança que já ameaçavam há muito soprar, não de feição, está a fazer-se sentir no mercado global. Há alterações nos hábitos de consumo, que se tornam o maior desafio a enfrentar, a par com uma crise económica e social que ameaça ser prolongada e causar danos. Estamos preparados para lidar e para tornar os desafios oportunidades?

Sou positivo por natureza e acredito no potencial dos nossos vinhos.  Temos que alargar fronteiras e reforçar a prioridade no planeamento cuidado e cirúrgico, no estudo dos mercados e dos públicos (dentro e fora de portas), na comunicação e nas estratégias de marketing, no storytelling genuíno em tornos dos mesmos… estes itens aliados a uma qualidade crescente dos nossos vinhos, muito por influência das apostas em experiências diferenciadoras que os enólogos trazem de outros países, acabará por se refletir num no aumento da exportação. Temos vinhos de elevadíssima qualidade em Portugal e repletos de potencial, que, paulatinamente, estão a entrar em novos mercados.

Não poderemos nunca ser um país de quantidades, mas sim de qualidade. É importante que as empresas vitivinícolas procurem posicionar-se num setor premium ou ultra premium e que abortem a ideia dos 3B’s, como eu costumo referir – bom, bonito e barato. Esta última variável caminha em direção ao desaparecimento. Não podemos deixar que bons vinhos, que envolvem imenso trabalho por parte dos produtores, e lhes custam dinheiro, cheguem a uma garrafeira e sejam colocados ao lado de marcas massificadas. Destes vinhos, de uma forma global, há muita concorrência lá fora. Temos de nos posicionar num setor premium e lutar pela valorização do vinho português, criando uma categoria super, mega premium, por exemplo, porque temos público para isso. E em Portugal, note-se, temos todos os ingredientes para desenvolver vinhos deste segmento: as regiões, as pessoas, a cultura, o terroir…

A nível de regiões, o Alentejo, o Douro e o Dão estão cada vez mais interessantes. No Dão, inclusive, há cada vez mais investimentos exteriores e a própria Bairrada e a região de Lisboa começa a sentir isso também.

Temos projetos interessantíssimos a lutar pelo vinho em Portugal, o Júpiter, o Segredo 6, os Villa Oliveira, Maze, Czar… É a inovação, a exclusividade, a história, que atraem consumidores e os investidores e tornam este negócio rentável. O vinho português começou a consolidar-se no mercado global e, apesar dos ventos fortes não estarem de feição no geral podem ser oportunidades para subirem valores aqueles que realmente o merecem… continuo a vislumbrar um futuro promissor, porque temos capacidade e qualidade para fazer um excelente trabalho nesta área.

 

Claúdio Martins,
consultor de vinhos, CEO da Martins Wine Advisor

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