Opinião

Obrigado, Donald Trump

António Brás Monteiro

Com o regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, em janeiro de 2025, tornou-se inevitável reabrir um debate que a Europa há muito evitava: o da sua real capacidade de assumir responsabilidades no domínio da segurança e da defesa. Independentemente das leituras políticas que se façam da sua liderança, é factual que a visão norte-americana do mundo, tal como expressa por Trump, alterou o equilíbrio psicológico e estratégico da relação transatlântica. Mais do que afastar os Estados Unidos da Europa, obrigou os europeus a confrontarem-se com a sua dependência estrutural — e, em última análise, com a necessidade de assumirem o seu próprio destino estratégico. Nesse sentido, e com a ironia que só a história permite, talvez se justifique agradecer-lhe: foi o catalisador involuntário de um dos mais significativos despertares estratégicos do continente europeu desde o final da Guerra Fria.

A publicação, em março de 2025, do White Paper on the Future of European Defence consagrou esse novo ciclo. Trata-se de um documento de natureza fundadora, onde a Comissão Europeia reconhece de forma clara e inequívoca que a Europa precisa de se preparar para um mundo mais competitivo, mais instável e menos indulgente. A proposta é ambiciosa: oitocentos mil milhões de euros destinados a reforçar as capacidades de defesa da União, revitalizar a sua base tecnológica e industrial, e consolidar uma autonomia estratégica que vá além do discurso. Fontes próximas do processo de elaboração do documento referem que o verdadeiro ponto sensível não foi o valor do investimento, mas sim as divergências latentes quanto ao papel estratégico que cada Estado-membro deverá assumir na próxima década — um sinal de que, por detrás do consenso político, subsiste a difícil questão da liderança e da coerência operacional no seio da defesa europeia.

A recente reunião informal dos ministros da Defesa da União Europeia, realizada em Varsóvia, e a próxima reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO, marcada para junho em Haia, são testemunhos adicionais da mobilização diplomática e operacional em curso. Estes encontros, mais do que meras formalidades, traduzem a consciência crescente de que a defesa europeia exige coordenação estratégica entre todos os seus pilares: o industrial, o político e o militar.

A guerra na Ucrânia, ainda sem fim à vista, revelou com crueza as limitações materiais e organizacionais da Europa face a um conflito de alta intensidade e longa duração. A escassez de munições, a obsolescência de sistemas críticos e a lentidão dos processos industriais demonstraram que a paz prolongada tinha produzido uma ilusão de prontidão. A Rússia reorganizou-se, apoiada pela China, pelo Irão e pela Coreia do Norte, e mantém uma pressão constante sobre o flanco leste da Europa. Por outro lado, o Médio Oriente voltou a ocupar o centro das atenções estratégicas, com o ataque coordenado do Irão e dos seus proxies contra Israel, em março de 2025, a confirmar o regresso de ameaças diretas à ordem internacional. A convergência entre ameaças convencionais, híbridas e assimétricas tornou-se uma realidade incontornável. A Europa já não pode continuar a reagir de forma fragmentada, nem pode depender exclusivamente da vontade de parceiros externos.

É neste novo quadro que a autonomia estratégica europeia ganha verdadeiro sentido. Não se trata de substituir a NATO, nem de cortar laços com os Estados Unidos. Trata-se de reconhecer que a segurança da Europa deve ser, antes de mais, uma responsabilidade europeia. Uma Europa mais forte, mais coesa e mais capaz só pode reforçar a NATO. A coesão da Aliança Atlântica não se constrói através da dependência, mas da partilha de responsabilidades. Uma autonomia responsável, ancorada em capacidades reais, é hoje o maior contributo que a Europa pode dar à solidez do pilar transatlântico.

Mas essa autonomia não se constrói apenas com orçamentos ou declarações. Exige alianças consistentes e orientadas para resultados. Entre estas, Israel assume um papel singular. Fora do quadro institucional da União Europeia e da NATO, mas profundamente alinhado com os valores e os interesses do espaço euro-atlântico, Israel é um parceiro estratégico de primeira ordem. Enfrentando há décadas ameaças existenciais, desenvolveu capacidades de defesa que se tornaram referência mundial: cibersegurança, interceção de mísseis, guerra eletrónica, defesa contra drones e doutrinas adaptadas a ambientes operacionais de alta complexidade. Não é por acaso que equipas técnicas de pelo menos dois Estados-membros da UE analisam hoje, com atenção redobrada, o modelo de inovação integrada entre setor civil e militar adotado por Israel — nomeadamente no cruzamento entre startups tecnológicas, universidades e forças armadas. A Europa tem muito a aprender com Israel e tudo a ganhar com uma cooperação mais estruturada — não apenas ao nível militar, mas também científico, tecnológico e industrial. Importa recordar que, nos dias que se seguiram ao ataque do Irão, houve, de forma discreta, partilha de dados operacionais entre centros de ciberdefesa europeus e parceiros israelitas — um sinal de maturidade estratégica crescente, ainda que não formalizada.

A dimensão económica deste esforço de rearmamento é igualmente determinante. Pela primeira vez, a defesa é encarada como vetor de reindustrialização e de soberania tecnológica. A Base Tecnológica e Industrial de Defesa Europeia (EDTIB) precisa de ser modernizada, ampliada e interligada, para responder à procura crescente e às novas exigências tecnológicas. O Fundo Europeu de Defesa, o EDIRPA e o recém-lançado EDIP são instrumentos fundamentais para impulsionar a produção, acelerar projetos e garantir um ecossistema competitivo e inovador. Técnicos envolvidos na operacionalização do EDIP admitem que está em análise a criação de contratos-quadro com cláusulas de mobilização em tempo de crise — uma proposta que poderá reforçar significativamente a prontidão industrial europeia. A integração de pequenas e médias empresas, startups e centros de investigação nas cadeias de valor da defesa é não apenas desejável, mas vital.

Tecnologias emergentes como inteligência artificial aplicada, sensores hiperespectrais, robótica autónoma, comunicações seguras, capacidades espaciais e armas de energia dirigida irão definir o sucesso operacional das próximas décadas. A Europa tem os recursos humanos, as instituições e o conhecimento para liderar nesse domínio. Mas precisa de vontade política, de agilidade institucional e de visão estratégica para transformar potencial em realidade.

O momento que vivemos exige, por isso, três elementos fundamentais: liderança, integração e visão. Liderança, para reconhecer que o mundo em que crescemos já não existe, e que a paz, hoje, exige preparação, dissuasão e prontidão. Integração, para ultrapassar décadas de fragmentação política, burocrática e orçamental, que enfraqueceram a eficácia europeia e a sua capacidade de resposta. E visão, para compreender que este esforço não se limita à dimensão militar — é uma redefinição profunda da presença europeia no mundo, do seu papel nas alianças e da sua capacidade de influenciar os rumos da ordem internacional.

A defesa da Europa, olhando com lucidez para o século XXI, assenta numa arquitetura tripartida que importa consolidar. Em primeiro lugar, a NATO, enquanto estrutura de dissuasão credível e de projeção de força, baseada na confiança mútua entre aliados. Em segundo lugar, a União Europeia, como força de integração, de coordenação política e de desenvolvimento industrial e tecnológico com autonomia estratégica. Em terceiro, os seus aliados próximos — com destaque para Israel — como fontes de inovação, conhecimento e capacidade tecnológica, que complementam e reforçam as valências internas do continente. Juntos, estes três pilares constituem a base de uma Europa mais segura, mais coesa e mais preparada para enfrentar os desafios globais que se avizinham.

O rearmamento europeu não é apenas uma resposta às ameaças atuais, nem um reflexo de receios conjunturais. É, acima de tudo, uma oportunidade histórica para afirmar uma Europa geopolítica, estrategicamente autónoma e economicamente resiliente. O tempo de hesitações terminou. O tempo de adiar escolhas essenciais ficou para trás. A Europa deve assumir, com maturidade e determinação, o papel que lhe cabe na preservação da paz, da liberdade e do equilíbrio internacional. É hora de liderar.

Como escreveu Sun Tzu, “a estratégia sem tática é o caminho mais lento para a vitória; a tática sem estratégia é o ruído antes da derrota.” Que a Europa saiba unir visão e ação — e que não se perca no ruído.

António Brás Monteiro,
Auditor de Defesa Nacional e Consultor de Defesa na Comissão Europeia

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