Sonhei anos a fio com este momento. Visitei o Brasil dezenas de vezes. Vivi em São Paulo, passados anos vivi no Rio de Janeiro, sempre para estudar representação. Várias vezes deixei cadastro na Globo. Conheci diretores, conheci realizadores, atores, visitei estúdios, e nada, nada me trazia ao Brasil para concretizar o sonho de fazer um projeto de ficção em terras de Vera Cruz.
Até que, em 2022, ligam-me a dizer: “Estamos aqui com um projeto para a HBO e somos capazes de ter uma personagem para ti, o que achas desta ideia?”. O que acho desta ideia?! Sabem quando recebem uma notícia e o vosso tempo para? Tudo fica em câmara lenta, o vosso cérebro bloqueia e nada do que disserem a seguir fica registado. Foi assim mesmo que aconteceu. Fora as lágrimas que insistiam em saltar, sim saltar, dos meus olhos.
Portanto, 17 anos depois deste sonho surgir, já com 41 anos, marido e filho, uma carreira em Portugal, um contrato com um canal, uma casa acabada de comprar, uma vida estável e privilegiada, aparece a possibilidade de concretizar um sonho que já achava quase impossível. Agora, era decidir se queria deixar tudo isto para trás e começar do zero.
Num país onde ninguém me conhece, onde sou apenas mais uma atriz, sozinha num mini apartamento, sem marido nem filho, saudades de milhões, uma vida congelada em Portugal, compromissos adiados, contratos com marcas que teriam de esperar. Sozinha, mesmo sozinha. Apenas com a certeza de que tinha chegado a hora de colocar mais um check na bucket list.
A verdade é que não pensei duas vezes. Quando, passados 11 meses da primeira conversa, me disseram “Rita, foste aprovada pela HBO mundial, a personagem é tua”, eu só respondi: Compro passagem para que dia?
Tudo o que essa decisão implicava ficava para depois, o importante é que tinha chegado a hora, portanto, let’s go!!
A despedida foi difícil, mas saí de casa a sorrir para que um dia o meu filho se lembre que ir atrás de sonhos é sinónimo de felicidade. Com a tristeza lido longe dos olhos dele.
Agora, o lado profissional da história. Questões, dúvidas, incertezas, autoconfiança que já não é a mesma num país onde a ficção é rainha e as pessoas, na minha opinião, parece que já nascem com a naturalidade de saber falar e se expressar com tanto à vontade. Foram muitos anos a ver novelas, séries, filmes brasileiros, sempre com a certeza que eles são mestres na arte de representar.
Comecei a preparar-me em janeiro de 2023, ainda sem a certeza de ficar com o papel. Fiz exames gerais de saúde, comecei a fazer musculação para ganhar força e definir o corpo, adiei o segundo filho, fiz aulas de fonoaudiologia para falar português do Brasil, pesquisei sobre a história do Brasil nos séculos XVIII e XIX, dentro do tema da série, tentei saber tudo sobre a “Dona Beja”, procurei um preparador de atores no Rio de Janeiro, pesquisei casas. Basicamente tentei organizar toda uma vida sem ainda saber que ela iria realmente acontecer. Mas tudo isto deixava-me psicologicamente mais tranquila.
Ah, esqueci-me de referir, nunca contei nada a ninguém até ouvir o sim da HBO. Apenas aos meus pais, irmã e companheiro. Sou muito supersticiosa e acredito que quando nos vangloriamos de algo importante sem ainda ter acontecido, nunca corre bem.
A chegada ao Brasil, deixo para o próximo mês. Sim, porque agora eu escrevo para a Forbes (sorriso orgulhoso de orelha a orelha).